12.3.13

sem fundo, mundo, mundo!


eu sou um saco sem fundo
mal caibo dentro do mundo. olho pra ele da janela do meu jardim.
na verdade é tudo mentira. mas ainda sou um saco sem fundo.
olhando pro mundo de dentro e respirando o mundo de fora.
na mentira é tudo verdade. estou um saco pela metade,
embora completo de ar e brisa, ainda assim, de coisas sem fim

6.7.11

coisas a se fazer

ir no museu uma vez por mês já que nessa cidade tem vários;
tomar chá todo dia por causa de problemas no rim;
durante o trabalho, no turno de seis horas por dia, pegar a bolinha cheia de saliências e atirar na parede;
comer pelo menos duas frutas ao dia. e diferentes;
catar clipes nas ruas e calçadas para um projeto secreto;
estudar horas ao dia, entre ir ao banheiro, comer e olhar pela janela;
adquirir uma bicicleta, melhor coisa a se fazer agora;
tirar férias imaginárias, fazer um empadão e namorar bastante;


28.12.10

Pra

morreu de, quando menos nem viu. os dedos das congelaram, repentina boa sorte estancou o que começava a jorrar, e nada mais viu até afinar a visão e então fechou os.
antes pensou em dias que chovem em dias que o sol pinga o sal da cara.
não queria ir mas foi.
dessa pra.

17.9.10

Clara evidência

sumo danoite, dodia, dashoras enfim. todas deixadas de ser vagas entre si; vagões estremecentes acordando num tempo em que se via que já era hora de seguir. adiante, sem passo avisando retrocesso, pernas dizendo sins. com bonitos ais, de maduros sopros, de ternuras caramelo-ouro. uma clarividência, um plim!

24.8.10

outra manhã

a baratinação matinal da escova não era tão frenética quanto ontem ou em outras vésperas. nada seria eu acho. o chique-chique mal tirou o gosto sujo de sono da boca. na mesa, já despejando a bebida mexeu na toalha velha e com furos. no mesmo instante, sem licença, o cheiro do café tomava-lhe as narinas. nos dedos muito alongados o ar de desengonço que seria percebido mesmo que não se movimentasse. a asa da xícara era engolida pelos deóides enquanto pegava a faca de cabo branco mas amarelo. coçava com o antebraço a testa umidecida; o calor fugia dos seus poros em forma de letra ó. depois da manteiga, dilacerou o pão com os dentes alvinhos. sentada na sua escrivaninha-mãe a refeição pareceu tola, não queria relamente ter posto aquilo pra dentro. mas seus gestos repetidos trocentos anos a fio ganhavam a perfeição de coisas milvezes esquematizadas dentro de si. acordar, comer, pensar, escrever, dormir. acordar. cuspir.

12.8.10

Bate sandália

Um filme a fez lembrar de uma valsa de 1930. Não pela trilha mas pelas cores desbotadas da fotografia antiga da película. a mistura de tons e formas e texturas a fez lembrar de coisas sutis e sem eventual apreço; ela guardaria também o gosto do sundae de ovomaltine que tomou numa tarde de abril; consigo sem intenção o copinho de plástico já sem o doce e no pé um três por quatro empenhoso. minutos contínuos arrastados num balancê do som da sandália na pedra, chacoalhando pedacinho por pedacinho do dia.

10.8.10

Cadê as notas que estavam aqui?

Quem mais seguia e catarolava com ela no caos, Quem mais com tais maneiras vagalumosas de enxergar o mar enverdecido, a sós com o céu? Ninguém mais sentiu vontade de sair arremedando o vento manso coregosto de araçá. Ninguém se atreveu a pisar em paralelepípedos gaguejantes, na areia fofa. Nem aquele cafuso tupiniquim, nem aquela branca azularada. Quem poderia se encorajar a piscar para o lado, escolher um dos mil e centos e dizer: vem cá, quer ver?! Nem o mais destro, nem a mais canhota, repetitivo, nem a mais anorexa invenção agora seria capaz de indagar as fileiras de olhares coletivos. Há um perigo em mente. Há um perigo e ninguém mais escapa de si mesmo.

9.8.10

Andança

Ando levemente nua e embriagada por onde somente eu quero andar. Foi o que decidi até o final-do-ano. Não vou conversar com muita gente até o final do ano. Só dou olhares a velhos amigos. Permaneço um pouco sem gelo e sem fogo dentro de mim, mas com anotações de geladeira mínimas sobre o universo e dando meu melhor bom dia ao porteiro. Bem assim, 'usando outra vez o sorriso de um menino que dorme com os sapatos novos'.
Só até quando o céu-paço-moita-vento-que-balança-xilindró-muié-a-saia-peteca-cão.

21.6.10

tem dias que não

tem dias que se tornam viver entre o doce e o amargo, sentir o sol acovardar-se bem na sua frente e perder o que surge depois da colina. é quando o tempo tortura as horas.

5.5.10

ser um bicho

ando de bicicleta. prefiro as cores. gosto de cerveja com amendoim e de me distrair olhando o sábado. janelas são boas bem abertas. converso com pássaros e coelhos sem ser muito alice. há anos não molho o pão no café e acredito que devo ficar longe de extintores de incêndio e de portas de emergência. mudo de penteado às vezes e é só.

13.4.10

mais linhas

a literatura que se enfia em linhas está nas prateleiras de bibliotecas e em caixas de papelão. é lá onde está todo açúcar e as formigas. e tem becos mal enluarados, sobra de sorte, fumo e licor barato. o velho biruta de óculos ousado e atitudes óbvias. um isto e um aquilo ali. tem bicicletas poéticas e uma lanterna cor de vinho. coisas ditas no mês de março entre canecas sujas de café. pães de diversos sabores e mães das mais modernas possíveis. botões para dedarmos. incompreendidos tons de rosa e arquétipos de chapéus. barbas escuras e mal feitas. mistura de cadeiras e núvem. nariz pretinho de gato. e corremos risco ao sair de casa. ótimo e inescapável.

9.4.10

Em partes

Da primeira parte...
Talvez eu precise começar a forçar meu vômito. Coisa que nunca fiz porque nunca quis fazer. rever a comida passada em troca de bem estar não me parece interessante. Devo exigir mais esforços de mim, como quem se violenta por algo maior, como quem não tem medo de ferir a própria carne ou a própria fé. Como quem perde a convicção de maneira fácil.

Da outra parte...
Fiquei com teu gosto impregnado em mim e por dias não consigo me desfazer dele. Fiquei com discos e filmes que antes eu não conhecia e agora são tão meus. Antes só te vi passar e suspirava, depois enfiei minha língua na tua boca e agora minha cabeça pensa em te encontrar numa esquina parado sorrindo para meus olhos. Ando sem pressa para viver, me esquivo das coisas enraizadas e conservadoras. e outra, para mim só se pode sentir por inteiro. Estamos há alguns segundos de sempre acontecer coisas. me movo.

30.11.09

(notícia baseada em fartos reais)

SucuPira. Cachaça. Turva. Mexe. Lâminas trançadas. Cabeças abertas e fachadas. Liquidificado ser sem traço, embaralhado de atropelos pelos lados. Morreu muleque de tiro, correu ladrão de tira, caiu de pileque o Pajé. E todo dia morrem, correm, caem esses aí, eu vi no jornal de todo dia de sempre. Vinte e tantas coisas tantas vezes ditas tornam-se uma verdade infinita, fácil de acreditar: tudo isso é isso mesmo. E fica por isso. O gato come esfomeadamente a ração verde e vermelha, escuras cores. A pata está dentro do prato. Agora a outra também. Falo das dianteiras. Come de faminto, sem interrupções. Cheira o chão, se lambe, me olha e corre e se lambe na boca. Nova lambida. Já foi para os pêlos. Em baixo da cadeira pensa que foge da observação e escapa de manso, correndo para onde quis. Bunda seca sentada na cadeira, sua vida acabará em menos de algumas décadas e dentes pretos perdidos pelo fumo, pelo consumo de azeite de oliva, de uva passa, de panetone, de margarina, de amoras. Com sabor ou não, veja lá. Mande o jornalismo, mande se catar. Quer ler notícias de quê? Coisa digo aqui e olha que foi coisa já disseram, mas o lance é que o ser não é tão assim mais, sabe?... Está muitinho embaralhado. Sou máquina, sou home, sou fome? Mande à merda o justificado, o espaçamento um e meio, a fonte Times New Roman, 12, que todos estão ficando alinhados. Outro dia li ali na revista que cenoura faz bem pros olhos, ovo tome cuidado, café nunca se sabe e pão com bolor dá vitalidade. No mesmo dia reparei em tudo, até no botão do olho do cachorro coxo porque foi atropelado por um camburão. Naquele dia, que foi um outro dia, o preso que estava preso foi pego por causa de quê cortou com a faca o pé moça que um dia havia pedido a mão. O filho mais novo correu atrás do pai o mais velho acudiu a mãe e jurou matar o insano da faca, o velho lazarento. Tudo no meio da propaganda do sucrilhos e leite docinho passando na tela do centro da sala. E sangue, enxugado com o papel do jornal da família aí que foi citada. Poça de sangue bem em cima da receita de bolinho de arroz com nozes. Alô! Sim, sou eu. Putz... Tá bom, pode ser hoje sim, de qualquer jeito eu teria que ir. Mas e aí, tudo bem com você? Era só isso né? Tchau! ZUUUMMMM, ZUUUUMMMM. Quanto carro nessa coisinha de rua minha Nossa Senhora Aparecida do Vagão Queimado! E esse sol, quente pra caralho... Ui, bem que podia chover. Calorão!!! Esqueci de comprar batatinha, ô coisa viu. Nossa, amo tanto você, não paro de pensar em vocÊ. A é, e vocês falaráam tudo isso no msn? Hahahaha E depois? E depois nada, nem olhei... Fiquei com vergonha. Então... Conversamos outra hora tá, tenho que achar umas pautas aí. Só não vai chutar pedra hein, outro dia li sobre combinar sapatos com bolsa hahahhhahah té!

7.10.09

Maria, do Tião

Maria bastava para Tião que não era o bastante para Maria. Eram uma assimetria. Um chimia, outro pão. Um se ria, outro não. Se bastava Tião, se ia Maria. Só ela percebia. Como se bastante fosse o não bastar agridoce do seu amor vacilão.

22.9.09

Cultura de selos


"Girl, tem um selo pra você lá no Lexotan".

Esse foi o recado da Lu, a pensadora do entorpecente blog Lexotan... E eu descobrindo que existe a cultura de selos em blogs! Adorei Lu, valeu!

Para dar continuidade aos selos devo aqui indicar 10 blogs supimpas que muito gosto de ler e citar cinco coisas divertidas das quais eu muito goste.

Os Blogs:
Blog do Hélvio - é dele, um historiador. ponto.
Deslize Casual - da jornalista Ana Loca
Di-Vagá - do jornalista Guilherme Custódio
Impressões Digitais - do Rodrigo o poeta Scaliant
Micropólis - da jornalista e escritora Marília Kubota
Pauta que Pariu! - da jornalista Polak, mãe do lindo Marco Antônio
Pipoca e Coca Cola - da Paula Fernandes que ama ser jornalista
Retalhos - da inventiva Scheylinha
é doce - da Fran flor de bom-bom
Sui Generis - do historiador detetive Xico


As coisas:
espirrar
língua de vaca
si menor
cheiro de salsinha
coração batucando

ps: todos os blogs que forem indicados devem fazer o mesmo
(é isso né Lu?)


17.9.09

Assombro


Confiava na sua sombra: se sempre se mexesse era um sinal seguro de que ainda vinha viva. Não tirava o olho dela nem para ir à missa de terça-quarta-quinta. Assim, a cada prenúncio de noite morava o desespero que não morria. De não saber se ainda viva estava e era por isso que passava o tempo inteiro da noturna sorte num sono profundo. E era por isso aliás que rezava para o sol nascer direito. Quando da angústia de não ver o rastro efêmero do seu corpo marcado de dúvidas no chão, nas paredes, em qualquer canto que fosse, lequiava os próprios dedos num gesto corrido para espantar o calor que envadia à socos a cara envelhecida. Enquanto, enquanto, enquanto. Era tudo que cabia na vigia da sombra, perseguida com o canto policial do olho mais novo. "Deus-me-livre ela morra que eu morro também de tanto-quanto", resmungava para as bandas do céu de cinco núvens já da tarde. Bem no dia mais em sol e em si do ano estancou de tanto espanto e caiu torta na porta, enfartando.


Ps: Texto criado nas tranquilas férias de julho (22/07/09), bem do meu gosto, bem no meio do mato e bem humorado. Estava esperando a contribuição de um amigo para ser publicado. A ilustração é do super, supimpa e publicitário, Douglas Menegazzi (Doug).

15.9.09

Sismógrafo

Sinto que os ossos do vento solar sempre me equilibram quando eu dobro uma e outra esquina. Percebo apenas com o canto do olho e dou mais um passo bem ao gosto das pessoas que não impelem o esquisito, que não deixam de falar alto consigo mesmas na rua apinhada de andantes e nem gentes. Bem ao gosto dos que cantarinam nas calçadas mesmo sós. Mesmo nó-na-garganta. Dificíl está sendo entender esses dias que parece que o que devo fazer é o que sempre fiz, mas não do mesmo jeito. Difícil mesmo é se deparar com um burburinho doce na mente que balança dentro de um continente lotado de ideias dúbias, emque a probabilidade de um terremoto ignora a Escala Richter.

22.7.09

Pensamento perambulante

Um olhar perdido nunca na verdade está perdido. Ele encontra-se com um pensamento perambulante e sai dançando na cabeça das horas. É por isso que estalar os dedos no auge da bailarinação trôpega de imaginativas estórias assassina quatro-cinco devaneios que não chegam a tempo de pular para o lado de fora, quase que parecendo esquisitisse, meio que algo assim, tam-tam. Se vai assim-como, com um sorriso ladeante nos lábios, compondo a feição menos harmoniosa que o rosto consegue chegar.