16.5.18

selva do mar

onde mora o amor?
se na selva
que alívio
que não haja tempo
nem limite

me preparo pra ver a selva do mar

tento antes outras arqueologias
que me salvem do sal
e da estrela na areia
fria bailarina

frente à fome, 

cardumes sem seus ossos 

28.4.18

águas

escrevo deitada em águas
pra conquistar teus olhos
quando me beijam em brasa
e furam minhas distintas nuvens.

escrevo pra hidratar teu peito e retinas.

em águas me deito
pra que me adentre,
em qualquer dia de sol
umidamente
e respire comigo
o ventre quando põe asas.




19.2.18

bendito

se miro a forma
refaço a ilusão
bendito amor
que já é tudo

mar

no dia em que me habitei
milênios depois do mar
morei no vento
na casa onde dançamos
pra diluir os ossos e montar novas asas

histórias

um minuto, desenho a sós
no peito um forno de barro
curando nossas vozes cardíacas
vou ali, pedir histórias de voar
me trazer inteiras faíscas
sol e fogo
frente à lua tardia

8.7.17

cambiante

vamos chamar o vento
hoje eu não me movo de mim

ter que chamar o vento
e declarar as águas vivas

e quando - ou se - rodarmos no mesmo eixo,
nos olhos fritos da fita
veremos :
fora e dentro como furta-cor
agora
partícula-poeira & caramujo - bicho fractal.

neste ponto, que me parte e rasga 
encontro a estreiteza-ilusão

dito isto, me curvo em reverência a tudo o que é Terra

29.5.17

[]

[cheiro]
o amor também é um retrato atemporal
do temperamento.

[som]
tem tempo que seguimos um congestionamento;
não de motores - de paixões

[o gosto]
temperança
que voa ligeiramente para a terra

[o olho]
ele está no banco de passageiro, 
o amor
a imagem não é pra qualquer um

[o corpo]
desata.


segredo de pedra

ontem é morro
ali é rio e pó
sal e água
segredo de pedra



,

o tempo é minha vó
sou eu e minha mãe
de maiôzinho na praia
pedindo pra areia durar

.

no meio da tarde escorrega o rio, 
sendo o mundo dos peixes

10.5.17

caleidoscópio

foi preciso semear no deserto e acreditar
ver o útero, meu e das outras
e ver os outros, que estiveram por dentro
e adoeceram o que é matriz

temos preparado terreno próprio,
acessamos nossas sabedorias - tecnologia antiga
vontade e potência, terra, amor e alegria



8.5.17

nôite

o brilho da noite não tem por dentro
se espalha

me conquisto pra me achar livre
faço fogo, chamo chuva na mata fechada

madrugada, meu lençol de penas douradas



26.10.16

Ñe'ë

estão comigo teus os olhos pretos enfeitados 
é presença e flutua.

olhar de quem é mbyá-guarani
de quem abriga nome e povo dentro de si

coração é terra a ser percorrida, 
coração é campo aberto

relâmpago florido,
estou sendo céu de tuas alvoradas

fumaça é cheiro que não se esquece

5.9.16

mulher parida



mulher parida, quanta manhã não adormecida, quantas noites espiando as portas da lua
me diz da tua vida, da tua lida em torno do sol
das cinco camadas no arco-íris, do nascimento no campo, da luz
da tua luta, da tua bata, da labuta
mulher parida e ardida de fogo
vejo forjar tuas pontas na água do olho
mulher da terra, parida, viu com o coração, pariu a consciência
teu mistério flutua no ar com a flor do dente-de-leão
tuas crias nascem e são as força da tua coroa.
ori.

25.8.16

amanhece

parei de morrer sem estar morta
e beijei as folhas do chão como quem deságua pecados
e enfiei a mão na terra
foi lá que deixei o sangue das nossas luas
e os cheiros pra nos lembrar
que nós nunca mais vamos morrer

zumbido

há zumbidos de cigarra no galho da minha cabeça
o som que se pode ver
são outros olhos
esquecidos abertos
no azul da cortina pintada na nuca

11.7.16

((( o )))

o tempo muda o canteiro da nuvem enquanto as montanhas ouvem enquanto o vento espalha as ondas e os brinquedos da terra |o coração coroa o silêncio e espera| ainda vejo o braço calmo das águas, são nossas, são deusas que povoam a lua |e o silêncio é solidão| o broto do capim as aves as fulozinha | solidão não é assim, estar só| a voz vem da vida antiga das pedras

19.5.16

folia

carnaval não é carvão,
é negr@.
me entoa.
balança meus brincos astrais,
no brilho da noite
me lava.